Dizem que o urso bailarino do circo é treinado da seguinte maneira: colocam-no sobre uma chapa metálica quente ouvindo uma música tocar e a elevada temperatura da chapa faz com que o urso se mova como se estivesse dançando. Durante a apresentação, o urso, já treinado (leia-se traumatizado), ouve a música e imediatamente se lembra da chapa metálica quente sob seus pés, de modo que ele dança mesmo sem estar, de fato, sentindo suas patas queimarem.
Este processo é tão traumatizante quanto o processo de adestramento de alunos utilizado pelo Instituto de Física "Gleb Wataghin", da Unicamp, que reproduz, de maneira um pouco mais cruel, a mesma ideologia adotada para o ensino de ciências exatas pela maioria das instituições de ensino superior brasileiras: o adestramento ao invés do ensino propriamente dito.
No início do curso, talvez com o objetivo de evitar a evasão massiva de alunos, o instituto nos mostra um mundo novo: uma física extremamente conceitual que exige reflexão e uma base teórica sólida.
Após certo tempo, ao invés de manter-se nessa trajetória, o curso muda radicalmente, se transformando em mero processo de adestramento que se resume em decoreba de fórmulas matemáticas que não se sabe de onde vem nem para que servem: é o urso sobre a chapa quente pulando em desespero sem saber porque.
O processo de ensino-aprendizagem, velho conhecido dos estudantes de licenciaturas, mas desprezado pelos professores do IFGW, é um processo de troca, e não de transmissão de conhecimento como vem ocorrendo no IFGW. O professor, ao invés de incentivar o espírito investigativo do aluno, o despreza, reduzindo um dos cursos mais ricos filosoficamente que pode existir em mero processamento de algoritmos. Não deveria ser este o trabalho dos computadores?
O físico deve ser, antes de mais nada, humano, e o homem é um ser que pensa. O computador não pensa, apenas processa algorítmos maquinalmente, da mesma maneira que os estudantes do IFGW. Fórmulas são decoradas e usadas para resolver listas de exercícios gigantescas. Pura repetição da mesmície.
Como conseqüência disto, a evasão no curso de física é gigantesca e poucos conseguem se formar, mesmo licenciados, visto que, até 2005, todos os alunos que optavam por licenciatura recebiam formação de bacharel, apesar de não terem o título correspondente. Quem sofre são os estudantes de ensino médio que, ao invés de aulas de física, têm aulas-vagas, já que não há professores suficientes para ensiná-los e os quase-professores que sempre foram os melhores alunos de suas respectivas turmas de ensino médio e passaram em um dos mais concorridos vestibulares do país são considerados inaptos para dar aulas, mesmo quando só lhes faltam disciplinas como Física do Estado Sólido e Métodos Matemáticos para Física, que só reproduzem a chapa quente do urso e têm ementas distantes da realidade do ensino médio, não contribuindo em nada para a formação do professor.
Quando urso e físico terminam seu processo de adestramento, ambos viram atração de circo.