Dificilmente uma editora se dispõe a lançar um livro de um escritor desconhecido, a menos que ele tenha em seu currículo um certo reconhecimento obtido através de concursos literários. Músicos costumam participar de festivais musicais. Pintores e escultores começam expondo suas obras em feiras e exposições. Enfim, a grande quantidade de artistas querendo divulgar sua obra em um mundo onde só o dinheiro interessa aos empresários que vendem arte (ou pseudo-arte que só atende a apelos comerciais) nos traz um grande problema.
Mas, assim como as gravadoras fecham as portas para músicos talentosos e as abrem para qualquer Mc Qualquer Coisa ou Fulaninho dos Teclados que aparece, as editoras também costumam resistir a pubicar romances, crônicas, contos e principalmente poesias de escritores iniciantes, enquanto mantém suas portas abertas aos "escritores" de auto-ajuda.
O fato é que para se publicar um livro no Brasil, país onde as pessoas não têm o hábito da leitura e os livros costumam ser caros, o escritor iniciante, salvo raras exceções, precisa ter uma certa fama obtida através dos concursos literários. Porém, fica a pergunta: como se avalia um texto em um concurso literário?
Talvez o critério mais justo seja a originalidade, mas em concursos costumam aparecer vários trabalhos extremamente originais, e muitas vezes é impossível dizer qual deles é o mais original.
Outros critérios costumam ser usados, mas no final o que acaba prevalecendo mesmo é o gosto dos jurados. Um escritor de vanguarda, por exemplo, pode não ter suas inovações criativas apreciadas por jurados adeptos do velho lirismo.
A questão central é como se pode comparar um texto de Machado de Assis com um de Guimarães Rosa e dizer qual deles é o melhor. Qualquer crítico literário diria que isto é impossível, que cada autor possui seu modo de narrar uma estória, sua própria visão de mundo e sua própria escola literária. Mas então porque no caso dos concursos literários esta comparação é possível? Por que os desconhecidos podem ser tratados como iguais e os autores consagrados não podem? Nos concursos de poesia aparecem textos concretistas, clássicos, modernistas, etc. Como se pode compará-los e dizer qual deles é o "melhor"?
Sempre que me inscrevo em algum concurso literário medito sobre estas questões. Acredito que um prêmio em concurso nada tem a ver com a competência do escritor. O critério que as editoras têm para selecionar um obra baseando-se no "mérito" do autor em concursos literários segue a mesma lógica do Prof. Dr. José Antônio Brum, diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que uma vez dise em uma palestra: "para fazer estágio no Síncrotron eu exijo que o aluno tenha um bom CR (Coeficiente de Rendimento, uma média ponderada das notas do aluno), porque um aluno que tem CR baixo pode ser um bom estágiário, mas se o aluno tem CR alto eu tenho certeza de que ele será um bom estagiário".
Se todos os cientistas fossem como Brum, a ciência não teria tido Faraday. Se todas as editoras fechassem as portas para escritores rejeitados pelos críticos dos concursos literários, não teríamos tido Guimarães Rosa. Até quando esse pensamentozinho hipócrita pequeno-burguês prevalecerá?