Blog EntryAs duas faces do preconceitoApr 9, '07 11:11 AM
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Recentemente a ministra Matilde Ribeiro (foto), responsável pela Secretaria Especial de Política da Igualdade Racial, afirmou que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco". O mais preocupante não é conteúdo da frase em si, mas o fato de ter saído da boca de uma ministra cujo trabalho é justamente combater o racismo.

Há muitos movimentos de "negros" mundo afora que pregam a discriminação contra os "brancos". Muitas vezes estes grupos justificam suas ações alegando que só estão respondendo à discriminação dos "brancos" e que se não agirem dessa maneira abrem espaço para a ação de grupos racistas.

Mas não é só com relação ao racismo que episódios como esse acontecem: basta vermos os vários grupos feministas que pregam a superioridade da mulher ao invés de lutarem pela igualdade entre os sexos, ou pobres que discriminam ricos, ou grupos religiosos que discriminam quem não segue sua religião. O preconceito é sempre bilateral, desde um grave problema social como o racismo, até preconceitos incomuns, como o de certos vegetarianos que não aceitam o fato de outras pessoas comerem carne.

O mais curioso é que todos esses movimentos parecem estar se dividindo em dois caminhos: o do diálogo e o da intolerância.  Nenhum exemplo seria melhor para ilustrar este fato do que a questão religiosa: de um lado vemos sacerdotes de várias religiões se reunindo para fazer grandes atos ecumênicos buscando uma coexistência pacífica entre os diferentes credos. De outro, há algumas religiões radicais que se consideram "a religião certa" e pregam o ódio aos que não a seguem. Dentro de cada religião se nota o mesmo dilema: alguns fiéis aprovam o ecumenismo, enquanto outros preferem interpretar preconceituosamente a frase bíblica "separar o joio do trigo".

Me lembro de ter visto, há alguns anos, um documentário sobre a ação de uma ONG de inclusão social na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Na ocasião, uma moradora da favela, ao ser entrevistada afirmou que já havia sido contra os "playboys", afirmando que costumava discriminar os jovens que usavam "roupas de marca" porque se sentia discriminada por eles. Somente o trabalho da ONG a fez perceber que ela também tinha uma visão preconceituosa dos "playboys".

No caso dos movimentos anti-racismo, a ministra mais tarde justificou sua frase dizendo que o racismo "é natural, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou". Novamente, caímos na mesma lógica de discriminar quem nos discrimina. E a luta pela igualdade entre os homens continua. Cada um lutando à sua maneira: uns cometendo massacres étnicos, outros usando a lei de talião, e outros buscando o caminho mais sensato: diálogo e disposição para compreender uns aos outros.


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