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 Diante do descaso da Universal Music Brasil para com a obra do Quarteto em Cy, que realizou nesta companhia a maior parte de seus trabalhos, iniciou-se uma campanha pretenciosa: mobilizar os fãs do Quarteto em Cy, considerado o melhor grupo vocal do Brasil, a enviarem e-mails à referida gravadora solicitando a reedição da obra do grupo. Cynara, integrante e empresária do grupo, deu seu aval para que iniciássemos juntos esta campanha. Esperamos poder contar com o auxílio de cada um de vocês para provar à Universal Music a viabilidade deste relançamento. Para tanto, pedimos que enviem ao menos um (01) e-mail ao endereço atendimento.cliente@umusic.com cobrando da gravadora a reedição da discografia do Quarteto em Cy pertencente a esta companhia. Segue abaixo uma sugestão de texto a ser copiado e colado na mensagem, bastando incluir a assinatura ao final. Cara direção da Universal Music Brasil,Gostaria de lhes atentar para um fato que muito vem incomodando a mim assim como a tantos outros admiradores dos artistas que compõem a nata de nossa MPB: a não-reedição dos álbuns do Quarteto em Cy, um dos mais expressivos e representativos conjuntos vocais da história tanto da música brasileira como da internacional, haja vista o público fiel conquistado pelo grupo não somente no Brasil, mas também em países da Ásia, Europa e América ao longo de seus 43 anos de existência.Compilações à parte, dentre os dezoito discos gravados pelo Quarteto em Cy nos selos hoje pertencentes à Universal Music – Forma, Elenco e Philips –, treze estão fora de catálogo no Brasil em formato CD. São eles:• “Quarteto em Cy” (1964) Forma• “Som definitivo” (1965) Forma• “Quarteto em Cy” (1965) Elenco• “Marré de Cy” (1967) Elenco• “Em Cy maior” (1968) Philips• “Antologia do samba-canção” (1974)• “Antologia do samba-canção 2” (1975)• “Resistindo” (1977) Philips• “Querelas do Brasil” (1978) Philips• “Cobra de vidro” - Com MPB4 - (1978) Philips• “Em 1000 kilohertz” (1979) Philips• “Flicts” - Com Sérgio Ricardo e MPB4 - (1980) Philips• “Quarteto em Cy interpreta Caetano, Milton, Gonzaguinha e Ivan” (1980) PhilipsAos admiradores brasileiros do Quarteto em Cy tem restado recorrer à importação de CDs através de sites estrangeiros ou ainda à garimpagem dos LPs originais. Sugiro-lhes, portanto, que, assim como já feito recentemente com a obra de Dóris Monteiro e Maria Bethânia, a Universal Music venha a reeditar em CD também a discografia do Quarteto em Cy por esta companhia – com especial atenção aos acima citados –, seja em álbuns avulsos, seja em box.Para comprovar a viabilidade da reedição de tais álbuns, clamo, juntamente aos demais admiradores do Quarteto em Cy, por este relançamento que, além de satisfazer a ânsia de seu público cativo, também honrará o compromisso da Universal Music para com a música brasileira.Atenciosamente,
Dizem que o urso bailarino do circo é treinado da seguinte maneira: colocam-no sobre uma chapa metálica quente ouvindo uma música tocar e a elevada temperatura da chapa faz com que o urso se mova como se estivesse dançando. Durante a apresentação, o urso, já treinado (leia-se traumatizado), ouve a música e imediatamente se lembra da chapa metálica quente sob seus pés, de modo que ele dança mesmo sem estar, de fato, sentindo suas patas queimarem. Este processo é tão traumatizante quanto o processo de adestramento de alunos utilizado pelo Instituto de Física "Gleb Wataghin", da Unicamp, que reproduz, de maneira um pouco mais cruel, a mesma ideologia adotada para o ensino de ciências exatas pela maioria das instituições de ensino superior brasileiras: o adestramento ao invés do ensino propriamente dito. No início do curso, talvez com o objetivo de evitar a evasão massiva de alunos, o instituto nos mostra um mundo novo: uma física extremamente conceitual que exige reflexão e uma base teórica sólida. Após certo tempo, ao invés de manter-se nessa trajetória, o curso muda radicalmente, se transformando em mero processo de adestramento que se resume em decoreba de fórmulas matemáticas que não se sabe de onde vem nem para que servem: é o urso sobre a chapa quente pulando em desespero sem saber porque. O processo de ensino-aprendizagem, velho conhecido dos estudantes de licenciaturas, mas desprezado pelos professores do IFGW, é um processo de troca, e não de transmissão de conhecimento como vem ocorrendo no IFGW. O professor, ao invés de incentivar o espírito investigativo do aluno, o despreza, reduzindo um dos cursos mais ricos filosoficamente que pode existir em mero processamento de algoritmos. Não deveria ser este o trabalho dos computadores? O físico deve ser, antes de mais nada, humano, e o homem é um ser que pensa. O computador não pensa, apenas processa algorítmos maquinalmente, da mesma maneira que os estudantes do IFGW. Fórmulas são decoradas e usadas para resolver listas de exercícios gigantescas. Pura repetição da mesmície. Como conseqüência disto, a evasão no curso de física é gigantesca e poucos conseguem se formar, mesmo licenciados, visto que, até 2005, todos os alunos que optavam por licenciatura recebiam formação de bacharel, apesar de não terem o título correspondente. Quem sofre são os estudantes de ensino médio que, ao invés de aulas de física, têm aulas-vagas, já que não há professores suficientes para ensiná-los e os quase-professores que sempre foram os melhores alunos de suas respectivas turmas de ensino médio e passaram em um dos mais concorridos vestibulares do país são considerados inaptos para dar aulas, mesmo quando só lhes faltam disciplinas como Física do Estado Sólido e Métodos Matemáticos para Física, que só reproduzem a chapa quente do urso e têm ementas distantes da realidade do ensino médio, não contribuindo em nada para a formação do professor. Quando urso e físico terminam seu processo de adestramento, ambos viram atração de circo.
 Qualquer semelhança com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, do ano de 1928, não se trata de mera coincidência! Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do saci. Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim, às bruxas do Bush.
O instinto do Saci. Só Saci. Um Saci contra as histórias do homem que começam no Cabo Canaveral. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. E os transfusores de sangue. Das veias abertas da América Latina. Antes dos norte-americanos ocuparem o Brasil, o saci já tinha descoberto a felicidade. Definida pela sacizidade de um antropófago, o próprio Saci. A transfiguração da Abóbora em carne seca. Antropofagia. Absorção do inimigo abóbora.
A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama.
São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora Texto e ilustrações extraídos do Sítio da Sociedade dos Observadores de Sacis (www.sosaci.org).
Me lembro bem de que, certa vez, há vários anos, a Cia Brasileira de Distribuição, mais conhecida como Grupo Pão de Açúcar (dona das redes de supermercados Pão de Açúcar, Extra, Compre Bem e Sendas), esteve à beira da falência.
Para se reerguer, adotaram campanhas publicitárias apelando ao patriotismo do povo brasileiro que, embora seja muito pouco, foi suficiente para aumentar a arrecadação das empresas do grupo, que se expandiu e aumentou muito seus lucros.
Na ocasião, as lojas da rede Pão de Açúcar adoram o slogam " Orgulho de Ser Brasileiro", e passaram a se apresentar como uma alternativa nacional diante das grandes companhias estrangeiras do ramo, como Wall Mart e Carrefour, que se expandiam rapidamente pelo território brasileiro. Na época, era comum ver uma bandeira do Brasil hasteada diante das lojas do Pão de Açúcar.
Os dias difíceis se foram, o "orgulho de ser brasileiro" também: já faz tempo que eu não via a bandeira brasileira hasteada diante da loja do Pão de Açúcar que eu costumava freqüentar. Ontem, 27 de outubro de 2007, ao chegar à loja para fazer minhas compras da semana, me deparei com uma pilha de abóboras com caretas pintadas e uma placa onde se lia "gostosuras ou travessuras", colocada sobre um monte de pacotes de balas industrializadas.
Gostosuras são paçocas e pés-de-moleque. E travessura é coisa de saci. Mas cadê as gostosuras bem brasileiras? E cadê o saci? Só havia abóboras feias fazendo careta para mim. E a carne seca? Abóbora se come com carne seca, ou com camarão. Mas... Com careta? Cara feia deve dar indigestão!
Como todos sabem, o dia 31 de outubro está próximo, e neste dia os povos de língua inglesa têm sua principal festa folclórica: o Halloween. Mas o que o Halloween tem a ver com o Brasil? Nós, brasileiros, não temos nenhum elo cultural com esta festa que vem sendo introduzida no Brasil pelas escolas de inglês e pela poderosíssima máquina de predação cultural americana. Nós, na condição de subdesenvolvidos, vemos uma cultura que não é nossa ser imposta ao nosso povo, enquanto a nossa verdadeira cultura vai se perdendo.
Então me lembro do Manifesto Antropofágico de Mário de Andrade, escrito no ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. O índio brasileiro, antropófago que era, cozinhava no caldeirão e, ao ver o Bispo Sardinha, europeu desavizado que passava por ali, o jogou no caldeirão e o devorou. E foi assim que diversos povos foram chegando ao Brasil e misturando sua cultura ao caldo que era cozido no caldeirão. As diferentes culturas se integraram perfeitamente bem: o saci foi aprender capoeira com os escravos e perdeu a perna, depois ganhou uma carapuça vermelha dos europeus. Os negros grudaram uma cabaça no arco do índio, criando o berimbau. O cavaquinho português se introsou com o reco-reco marroquino, as caixas alemãs, o surdo e a cuíca nativos do brasil, e formaram o samba. Mais tarde o samba se juntou ao jazz para virar bossa-nova.
O interessante em todos estes casos é notar a interação entre diferentes culturas. Dessa interação surgem novidades que, mais do que um incremento à cultura das terras de além-Tejo, se transformam em referência cultural no mundo todo.
Agora faço a pergunta: De que vale este Halloween intruso? Esta cultura predatória que em nada nos acrescenta? Quem compra comida enlatada jamais desenvolve uma nova iguaria. É preciso haver interação, deglutição, e não predação.
O que mais me preocupa é que, quando chega alguma lata de sardinha importada, não a deglutimos como fizemos com o Bispo Sardinha, porque o caldeirão está vazio. As escolas para crianças ensinam inglês e promovem festas de Halloween. Oferecem Coffe Breaks para os pais dos alunos e vendem, em suas cantinas, donuts, x-eggs e croissants. Escolas maravilhosas. O único pequeniníssimo defeitinho que elas têm é o de não cumprirem seu papel de escola: o de encher o caldeirão das crianças com estórias de sacis, iaras e curupiras.
Não defendo uma cultura estática, visto que cultura estática é cultura morta. A cultura está em permamente evolução. Mas para evoluir é necessário termos a base, a nossa essência cultural, para interagir com as novidades, se alimentar delas, comer a abóbora e transformá-la em energia para o povo tupiniquim.
É exatamente por isto que costumo divulgar o famoso slogan "Ralouim só se for com carne seca". Abóbora com carne seca é um prato típico brasileiro servido todos os anos pelos restaurantes de São Luís do Paraitinga no dia 31 de outubro, dia em que comemoramos o "Dia do Saci e Seus Amigos". Nesta cidade acontece a maior comemoração do Dia do Saci no Brasil. É o ralouim caipira, a deglutição da abóbora que chega ao Brasil como predadora e acaba virando presa, exatamente como o Bispo Sardinha.
O Grupo Pão de Açúcar, comandado por um empresário que malha com "personal trainer", defende a predação cultural americana, surfando na onda do "Dia das Bruxas" para atrair a simpatia de adolescentes com caldeirões vazios que, na necessidade àvida de identidade cultural, enchem seus caldeirões com as abóboras de careta e as balas de Corante Caramelo IV. Os empresários não percebem que os trocados a mais que eles ganham com isso poderão nos levar a uma perda de identidade cultural que facilitaria muito as investidas de redes americanas de supermercados no Brasil, levando-os à falência definitivamente.
A um povo que perde sua cultura só resta a morte. Chega de cultura enlatada! Chega de predação cultural! Uma rede de supermercados que diz ter "orgulho de ser brasileira" oferecendo "gostosuras ou travessuras" não merece nosso dinheiro. Vamos dá-lo aos donos dos pequenos mercados, cidadãos brasileiros que trabalham duro no dia-a-dia para manter suas lojas abertas competindo com as grandes redes. E ainda conseguem juntar um dinheirinho para enfeitar a loja com serpentinas durante o carnaval ou doar (sem descontar do imposto de renda) a alguma instituição de caridade na época do natal.
Clique aqui para assinar o abaixo-assinado pela criação do Dia do Saci.
Clique aqui para enviar uma mensagem de repúdio ao Grupo Pão de Açúcar.
O senado, em uma atitude corajosa, absolveu o senador Renan Calheiros, atitude que a mídia classificou como pizza, impunidade, etc. Para quem se "informa" através da Veja, do Jornal Nacional e do Estadão, parece um absurdo, no entanto, conforme podemos ver neste discurso, o senado agiu corretamente, visto que o julgamento de Renan violava procedimentos estabelecidos pela nossa constituição. O senado não sucumbiu aos interesses da mídia, que fez campanha pela condenação de Renan com o objetivo de promover o caos na base governista. Espero que o discurso abaixo, do senador Francisco Dornelles, ex-secretário da Receita Federal e ex-Ministro da Fazenda, sirva para esclarecer o ocorrido e ajude chamar a atenção para a distorção de informações e o colunismo da mídia.
Senhor Presidente, Senhoras Senadoras e Senhores Senadores O Senado vai se pronunciar, hoje, sobre matéria de grande relevância. O Senado não vai julgar hoje a pessoa de Renan Calheiros, suas simpatias, suas antipatias, suas alianças, sua atuação política. O Senado vai julgar um Senador da República, que poderá ter o seu mandato cassado em decorrência de determinadas acusações. Em outras palavras, o Senado vai julgar se as acusações apresentadas contra um Senador da República têm consistência que justifique a cassação de seu mandato. A acusação que figura no processo do Senador Renan Calheiros consiste na premissa de que os recursos que ele entregou à Jornalista Mônica Velloso, mãe de uma filha sua, eram fornecidos por uma empresa de serviços, por intermédio de um de seus empregados. Então o que é que aconteceu? A empresa de serviços declarou que não fornecia nenhum recurso ao Senador Renan Calheiros. O empregado da empresa de serviços declarou que os recursos que levava à Jornalista Mônica Velloso pertenciam ao Senador e que ele, simplesmente, os levava à Jornalista porque era amigo comum de ambos. O Senador afirma que os recursos eram de sua propriedade. A Jornalista, em momento algum, questionou sobre a origem dos recursos. Assim sendo, não há, até então, nenhuma prova de que os recursos entregues à Jornalista Mônica Velloso não pertenciam ao Senador Renan Calheiros. Entretanto, o que entendeu o Conselho de Ética? O Conselho de Ética entendeu que o Senador Renan Calheiros não tinha renda nem patrimônio suficientes para fornecer à Jornalista Mônica Velloso os recursos que lhe eram entregues. Senhoras Senadoras e Senhores Senadores O Conselho de Ética entendeu, na prática, que o Senador cometeu crime contra a ordem tributária. Mas acontece que um crime dessa natureza somente pode ser tipificado no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, conduzido pela Secretaria da Receita Federal, conforme tramitação prevista em legislação própria. De acordo com essa legislação, abre-se o processo com uma intimação ao contribuinte para apresentar esclarecimentos. Se os esclarecimentos não forem satisfatórios, lavra-se um auto de infração para lançamento dos tributos cabíveis. Lavrado o auto de infração, o contribuinte tem o direito de impugnar a exigência, em primeira instância, perante as Delegacias de Julgamento da Receita Federal. Sendo-lhe adversa a decisão de primeira instância, o contribuinte poderá apresentar Recurso Voluntário ao Conselho de Contribuintes e, eventualmente, Recurso Especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais. Somente após a decisão desfavorável de segunda instância é que a exigência fiscal se torna definitiva. Em outras palavras, o lançamento fiscal só se conclui após esgotados os recursos próprios do contraditório e da ampla defesa. Foi afirmado pelo Conselho de Ética que a Polícia Federal desacreditou documentos apresentados pelo Senador Renan Calheiros. Foi afirmado, também, que o Senador mentiu sobre sua capacidade patrimonial. Senhoras Senadoras e Senhores Senadores Essas informações e esses documentos deveriam ter sido enviados à autoridade competente, Secretaria da Receita Federal, para serem anexados ao Processo Administrativo Fiscal, examinados e apurados. Senhoras Senadoras e Senhores Senadores Vamos imaginar a seguinte situação. O Senado cassa o mandato de um Senador, com base no pressuposto de ter, ele, cometido crime contra a ordem tributária, sem abertura do competente Processo Administrativo Fiscal. Amanhã, a Secretaria da Receita Federal, órgão encarregado de apurar esse tipo de crime, no processo próprio, conclui que o Senador não cometeu crime contra a ordem tributária. Como ficaria o Senado? Senhoras Senadoras e Senhores Senadores O Senado, na decisão que hoje vai tomar, não pode se afastar da ordem jurídica, nem personalizar o assunto. E qual o problema específico? Cabe ao Senado decidir se existem provas de que os recursos entregues pelo Senador Renan Calheiros à Jornalista Mônica a ele não pertenciam. Nenhuma prova foi apresentada nesse sentido. A empresa de serviços afirmou que os recursos eram do Senador, o amigo comum do Senador e da Jornalista, funcionário da empresa, afirmou que os recursos eram do Senador Calheiros. O próprio Senador afirmou que os recursos eram dele, a Jornalista nada contestou. Em que se baseou o Conselho de Ética para pedir a cassação do mandato do Senhor Renan Calheiros??? Baseou-se em que o Senador não teria patrimônio e renda suficientes para arcar com aquelas despesas. Só que, quem pode dizer se o Senador Renan Calheiros tinha renda e patrimônio, se podia ou não arcar com as despesas realizadas, é a Secretaria da Receita Federal, através de um Processo Administrativo Fiscal, que nunca foi sequer aberto. Como ficaria o Senado se, cassado o mandato do Senador Renan Calheiros com base em crime por ele cometido contra a ordem tributária, fosse ele amanhã absolvido pela Secretaria da Receita Federal? Esses pontos, Senhores Senadores, é que têm que ser considerados num momento tão importante. Nós não podemos personalizar, não estamos julgando a figura do Senhor Renan Calheiros. Nós estamos julgando se existem provas concretas para cassação do mandato de um Senador eleito.
Obs: a mídia ainda jura de pé junto que o senador Dornelles estava a favor da condenação de Renan.
Depois do Cansei, movimento da elite protestando contra os impostos altíssimos que eles sonegam e contra a corrupção que, segundo eles, existe no atual governo mas jamais existiu antes, agora a elite também quer o fim da CPMF. A Fiesp, instituição parasitária que reúne os grandes empresários do país e tem por objetivo defender os interesses destes empresários (e não do povo) está realizando um abaixo-assinado para impedir que a CPMF seja prorrogada, alegando que o imposto foi criado com o objetivo de melhorar a saúde pública, porém nenhuma melhora ocorreu durante os onze anos de vigência da CPMF. Agora eu pergunto a estes "çábios" empresários: algum de vocês já foi atendido pelo SUS? No ano retrasado tive o privilégio de debater a situação da saúde pública com pessoas que trabalham com políticas públicas neste área e eles me apresentaram o resultado de uma pesquisa de opinião muito interessante: desde o início do governo Lula, a maioria dos usuários do SUS têm considerado que a saúde pública no Brasil tem melhorado, enquanto que, entre os não-usuários do SUS, há a crença de que a saúde pública não melhorou ou até piorou. Os serviços básicos do SUS ainda deixam muito a desejar, em muitos lugares o atendimento é demorado, faltam remédios, etc. Porém, é necessário lembrar que, aos poucos, a situação está, sim, melhorando, e não é da noite para o dia que o SUS, outrora sucateado, irá se transformar em referência em atendimento na área de saúde. Convém lembrar que o Brasil tem a maior campanha de vacinação do mundo, as maiores campanhas de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, uso de álcool, tabaco e drogas do mundo, e os serviços especializados do SUS são excelentes. Voltando a falar da CPMF, é um instrumento poderoso no combate ao caixa dois das empresas, pois permite ao governo ter mais controle sobre as operações bancárias de pessoas físicas e jurídicas, ajudando também no combate à lavagem de dinheiro e na descoberta de esquemas de pagamento de propinas, entre outras atividades ilegais. Um exemplo interessante seria, através da CPMF, identificar rapidamente que um certo empresário ou algum laranja depositou dinheiro na conta de algum prefeito ou governador em troca de favorecimento em licitações. Por fim, sabe-se que quem tem mais dinheiro efetua mais movimentaçõies bancárias e, conseqüentemente, paga mais CPMF, enquanto as pessoas mais pobres, que só usam banco para receber pagamento e pagar contas, pagam uma quantia pífia de CPMF. Portanto, a CPMF é um imposto justo, pois tira mais dinheiro de quem tem mais, e menos de quem tem menos, ao contrário do imposto que se paga ao comprar um pacote de bolachas, que onera da mesma forma todas as classes sociais. Se o problema é reduzir a arrecadação do governo em R$ 37 bilhões ao ano, façamos isso reduzindo outro imposto, já que, dessa forma, beneficiaríamos as classes sociais que realmente precisam de cada centavo que possam poupar. Em tempo: é importante lembrar que a elite que reclama da corrupção e da CPMF é a mesma que financia as campanhas dos corruptos, manipula a opinião pública através dos meios de comunicação, sonega impostos e elege governantes para defender seus interesses. Historicamente, sempre que o Brasil teve um governo que efetivamente tratou todos os brasileiros como iguais, equilibrando a balança da justiça, a elite se levantou contra o governo, usando todo seu poder político para tentar derrubá-lo. Da última vez que isto aconteceu, foi logo antes do Golpe de 64. Agora, que essa elite não está conseguindo derrubar o governo, faz discursos inflamados defendendo ideologias fascistas e extremamente preconceituosas, como a de Eliana Castanhêde, que diz que Lula foi reeleito pelas "pessoas simples", pois as pessoas complicadas e bem informadas sabem que Lula não presta, apesar de ter recebido um país em crise e agora termos uma realidade bem diferente, com o PIB crescendo, exportações aumentando, portos operando no limite, empregos sendo gerados e a renda per capita do brasileiro aumentando. Recentemente fiquei chocado ao ler um artigo de Arnaldo Jabor dizendo que "brasileiro é burro" e dizendo para os "brasileiros inteligentes" não desanimarem porque um dia este governo cairá e as "pessoas de bem reassumirão o poder". Quem são essas "pessoas de bem" a quem Jabor se refere? Um novo Médici e velhos caciques da nossa política que sempre se aproveitaram do povo? Os políticos que restaram da ARENA e atualmente estão no DEM? Pior do que isso, só entrar no site extremamente democrático do Cansei (onde ninguém pode postar suas opiniões) e ler declarações de grandes intelectuais brasileiros, como Ivete Sangalo e Ana Maria Braga, apoiando este movimento. Eu também cansei: cansei de gente hipócrita. Cansei de uma elite que suga o sangue do trabalhador brasileiro e põe a culpa no governo. Cansei dos cartéis das empresas da Fiesp, que aumentam suas margens de lucro e impedem a livre concorrência de mercado. Cansei de ver uma elite dizer que se envergonha do Brasil sem fazer nada para melhorá-lo. Cansei de ouvir a mídia culpar o Lula pelos acidentes aéreos da TAM e da Gol. Cansei da sonegação de impostos. Cansei de quem só se mobiliza para defender interesses de quem sempre mandou no Brasil. Cansei de ver nosso país sendo vendido a preço de banana. Cansei de ser chamado de ignorante por ter votado no Lula. E só para esclarecer a Arnaldo Jabor: não votei no Lula por ter pena de um desempregado, mas porque o considero melhor do que qualquer tucano para governar nosso país.
A tal "crise aérea" nada mais é que uma manobra de uma mídia golpista que transforma acontecimentos banais em shows de sensacionalismo. Ao contrário do que diz a mídia, a infra-estrutura aeroportuária não parece ser responsável pela tal "crise", afinal, essa tal "crise" começou da noite para o dia e, se o problema fosse estrutural, os atrasos nos vôos deveriam começar lentamente, demonstrando um processo de saturação dos aeroportos e da capacidade do controle de tráfego aéreo. Em outras palavras, a quantidade de aviões em certo aeroporto não vai dobrar da noite para o dia, portanto, não se justifica com tal argumento o fato de um dia termos tudo tranqüilo nos aeroportos e, de repente, termos filas enormes e passageiros sem conseguir embarcar. O fato é que a tal "crise" começou justamente quando a Varig encerrou suas atividades, deixando um vazio enorme nos nossos aeroportos, um buraco a ser preenchido pelas demais empresas de aviação, especialmente pela Gol e pela TAM. As empresas aéreas, para receber os passageiros que antes viajavam pela Varig, criaram novas linhas sem haver muito planejamento. Adiciona-se a este fato o costume dessas empresas de fazer escalas nas linhas menos movimentadas visando maximização dos lucros. Como toda essa modificação gigantesca nos horários dos vôos teve que ser feita ás pressas, houve pouco planejamento e, conseqüentemente, foi gerado o caos. Não vou negar que parte desta culpa é da ANAC, que é responsável pela homologação destas mudanças. Porém, cabe às empresas aéreas a maior parte da culpa. A mídia golpista que não esconde sua desaprovação ao presidente Lula foi logo dando um jeito de empurrar toda a culpa para cima do governo. Um exemplo recente são as notícias do aumento das vendas de passagens de ônibus. Ora, todo mundo sabe que julho é época de férias para muita gente e sempre teve aumento das vendas de passagens de ônibus nesta época do ano, especialmente na semana passada, quando as férias estavam acabando. Quanto ao excesso de trabalho dos controladores de vôo e à obsolência dos equipamentos usados por eles, é um problema muito antigo, mas que, estranhamente, só ganha espaço na mídia quando há algum acidente aéreo. Acredito que a segurança dos vôos no Brasil é um tema de interesse público e deveria ter espaço constante na mídia, no entanto, no Brasil a mídia só se lembra destes problemas em momentos de tristeza e revolta, quando a sociedade está em busca de um bode expiatório e aceita com facilidade a idéia de culpar o governo. Este fato chega ao absurdo quando vemos na tv, uma semana após o acidente com o avião da TAM, a denúncia de que há vários prédios irregulares ao redor de aeroportos do país. Onde estavam os repórteres quando as prefeituras autorizaram as contruções? Eles não têm um compromisso de denunciar irregularidades à sociedade? Essa forma de jornalismo irresponsável só prejudica o desenvolvimento do Brasil. Para piorar, vemos repórteres que nada sabem sobre aviões a não ser que eles possuem asas discutindo detalhes técnicos das aeronaves e dando palpites sobre a tal "crise", palpites estes que nada mais são do que misturas de clichês com conceitos intuitivos tecnicamente errados. No entanto, a mídia brasileira, que há muito tempo deixou de informar para servir como meio de manipulação da opinião pública, quer usar seu poder para arranhar a imagem do presidente Lula, que chega a ser chamado de ditador em uma coluna de jornal, sendo que Lula é um dos maiores ícones das Diretas Já e, ao contrário de FHC, não tenta abafar escândalos e CPIs e nem manda a tropa de choque bater em manifestantes, ao contrário do governador Serra que governa por decretos e se recusa a negociar com estudantes que ele, ex presidente da UNE, chama de baderneiros. O mais estranho neste caso é que, aos olhos de um outsider, o governo de Lula pouco difere do de FHC, pelo menos no que diz respeito ao campo econômico. No entanto, a mesma mídia que sempre declarou amor a FHC e aos tucanos (e preservou a imagem do PSDB durante a tragédia do metrô), ataca Lula. Sempre mostraram FHC como o salvador da pátria. Já Lula é mostrado como um imcompetente que está levando o Brasil para o buraco. A atuação da mídia golpista e elitista chega ao absurdo de chamar o eleitor de Lula de burro, como se pode notar claramente em certos jornais. Parece que o único motivo de tanto ódio a Lula é o fato de ele ser um intruso em Brasília, que sempre foi dominada por velhos caciques da nossa política que nasceram em berços de ouro e jamais se preocuparam com o povo. A elite se envergonha em saber que um operário que já passou fome e teve um dedo amputado enquanto trabalhava agora é presidente da república. Mais ridículo ainda é a revolta da elite por causa dos "altos impostos, corrupção e impunidade". Eles são uns santos! O Brasil precisa de um jornalismo responsável e comprometido com a verdade e a imparcialidade. Mas enquanto mantivermos nossa herança colonial de coronéis e aristocratas oportunistas, continuaremos sendo chamados de burros quando adotarmos opiniões não-fascistas e, especialmente, quando legitimarmos o direito à igualdade entre todos os cidadãos brasileiros. Nesse cenário, a internet surge como uma terceira via de comunicação, onde pessoas comuns, como eu, podem dar suas opiniões, ver no youtube tudo o que a globo se recusa a mostrar, ler o artigo que o estadão se recusa a publicar, enfim, conhecer também o outro lado da história. Eu, assim como muitos brasileiros, já estou farto do colunismo da mídia. Talvez isto explique porque a internet está se tornando tão popular no Brasil. Clique aqui para ler um excelente artigo de Marilena Chauí sobre a "crise aérea". Clique aqui para ler um artigo de Paulo Henrique Amorim sobre o acidente da TAM Attachment: TAM.ppt
O acesso às vagas de qualidade no ensino público superior está estruturalmente vetado às maiorias pobres no Brasil. Esta situação exige ações profundas, corajosas e urgentes de todos os níveis do governo, e da sociedade brasileira em geral. A opção por atalhos fáceis revela a enorme preguiça que a Nação demonstra em lidar efetivamente com o problema, podendo comprometer os poucos nichos de qualidade que o Sistema Nacional de Ensino ainda apresenta. O Brasil tem 180 milhões de habitantes. Com uma taxa anual de natalidade próxima de 2%, nascem aqui todo ano mais de 3 milhões de crianças. Esta coorte demográfica pode ser vista por dois ângulos opostos: o das exigências e o das potencialidades. São mais de 3 milhões de bebês a demandar saúde, alimentação, moradia e todo o tipo de atenção ao indivíduo. Mais adiante, creches, escolas, lazer; mais alimento, mais saúde e proteção. São 22 milhões de banhos todas as semanas. Aí, tremam! Chega-se à adolescência... Mais alimentação, muito mais. E muita atenção, que toda a sorte de perigos espreita. E lazer. Pelo menos os banhos diminuem muito. Os sobreviventes, cerca de 95%, chegam aos 18 anos. A pressão agora é na oferta de empregos; nas vagas para a universidade. São os problemas. As demandas gigantescas sobre os recursos, materiais ou não, da sociedade. Do outro lado as possibilidades, e quero aqui conduzir uma linha de reflexão. A universidade americana adota uma forma diferente da brasileira de selecionar seus novos alunos a cada ano, de um contingente geralmente muito maior de candidatos. Existe um exame padronizado, feito por uma instituição independente, ao qual se submetem milhões de candidatos em todo o país. Na verdade, em todo o mundo. O comitê de seleção da sua universidade escolhida lhe sugerirá que faça o exame e lhes envie o resultado, juntamente com seu currículo escolar. Ao participar daquele exame, você se coloca numa base comum de comparação com milhões de outros jovens em todo o mundo, seus contemporâneos, compartilhando com você de objetivos acadêmicos semelhantes. Seu resultado na prova será apresentado numa escala percentual: a sua posição relativa entre aqueles milhões de jovens. Um escore 95% indica que seu desempenho na prova deixou 95% dos candidatos abaixo e cinco por cento apenas acima de você. É um ótimo resultado. Com ele suas chances de ser aceito numa escola do primeiro grupo são muito grandes. Mais acima, no 99º percentil você estará na elite acadêmica, no 1% superior. As portas das mais consagradas instituições acadêmicas do planeta (MIT, Harvard, Caltech, Princeton) estarão abertas a você. Eles saberão que, como estudante, você é uma aposta certa. Agora, imagine aquela garotada do 99,9%... a turminha do milésimo superior! São jovens extraordinários academicamente que, devidamente nutridos, farão coisas extraordinárias. As melhores universidades brigarão por eles. O fato é que qualquer pessoa que esteja no milésimo superior de seu grupo etário, em qualquer campo de atividade, certamente chegará muito longe... se receber os estímulos certos, nos momentos certos. Nos estratos ainda mais altos temos, por exemplo, o milionésimo superior. Ronaldinho Gaúcho certamente veio ao mundo naquela região probabilística rarefeita do talento congênito extremo para o futebol, e teve sorte de ser notado a tempo. Muitos outros, não terão a mesma sorte e passarão anônimos pela vida, nunca jogando futebol, mas, quem sabe, sentindo alguma coisa estranha por dentro, como o pulsar inquietante da genialidade não manifestada, sempre que confrontados com objetos de forma esférica. O que teria acontecido com o Pelé, houvesse ele nascido 100 anos antes? Ou em 1940 mesmo, mas na Mongólia? Eu próprio gosto de me consolar pensando que, dentro de minha espessa mediocridade, hiberna a genialidade para alguma coisa – esporte, arte ou ciência – ainda não descoberta pelo engenho humano. Há aqui um fato estatístico auto-evidente: para cada disciplina, para cada dimensão do complexo multidimensional das habilidades humanas, entre os três milhões de bebês que nascem todos os anos no Brasil, existem 30 mil, exatamente, que se posicionam, por sua predisposição congênita àquela disciplina, no 1% superior de sua geração, o percentil superior da coorte naquela dimensão. São bebês potencialmente extraordinários. Devidamente nutridos, estimulados, desafiados, aqueles das vertentes acadêmicas encontrarão portas abertas nas melhores universidades do mundo. Nas ciências e nas humanidades, eles dariam excelentes professores. Nas artes seriam reconhecidos e estimados em suas comunidades. Nos esportes fariam miséria nos torneios regionais. Trinta mil – todos os anos – em cada dimensão imaginável. Pense agora nos grupos do 0,1% superior. Imagine um garotinho daquele nível em, digamos, Matemática. Ele tem, nesta dimensão, um potencial congênito que o coloca acima de 999 de cada grupo médio de mil de seus contemporâneos. Sonhe... Ele crescerá em ambiente estimulante e desafiador e, na escola, cruzará com professores sensíveis e estimulantes. Espontaneamente e com legítimo prazer, aos 7 anos ele se divertirá resolvendo, de cabeça, sistemas multivariados de equações lineares embora, talvez, não demonstre aptidão especial em outras disciplinas como, por exemplo, Desenho Artístico. São 3 mil destes garotinhos e garotinhas, um suprimento generoso a cada ano... apenas em Matemática. Os 3 mil do topo em Linguagem e Comunicação, também recebendo estímulos certos nas horas certas – hei, sonhar não é proibido! – comporão textos encantadoramente criativos desde muito cedo. Outros terão uma visão espacial fantástica, girando de cabeça volumes tetradimensionais complicados, dando-nos interpretações lúcidas de suas projeções tridimensionais. Aqueles eventos escolares, do tipo show de talentos, não se cansariam de nos surpreender e encantar, nas mais variadas dimensões do talento humano. E os torneios esportivos inter-escolares então, seriam gloriosos e atrairiam toda a comunidade e não apenas os pais corujas. Uma aluna minha, no semestre passado, desembaralhava nomes de cidades brasileiras tão rapidamente que irritava seus colegas. Num experimento aberto em sala, usando o datashow, ela ganhou todas, inclusive decifrando QTCAUEBUEUT antes que eu digitasse as últimas 4 letras: QIAA. E ela nem era de lá! Sem o benefício do espaço no meio, GLEPATROREO lhe tomou mais tempo, uns 5 segundos. Subindo ainda mais chegamos à estratosfera do talento humano. Nas fronteiras da genialidade, estarão os 30 bebês do centésimo de milésimo e, ainda acima, os 3 do milionésimo superior. Por ano e por disciplina. Estes farão coisas realmente extraordinárias. Ganharão o Prêmio Nobel e medalhas olímpicas. Serão poetas, arquitetos, jardineiros, cozinheiros fantásticos. Ou não receberão os estímulos certos nas horas certas e passarão a vida em branco, mas sentindo, provavelmente, ao longo de toda a existência medíocre, aquela sensação inquietante de algo grande, latente, hibernando-lhes por dentro, sem encontrar uma linguagem através da qual se manifestar. Vemos por todo o lado a marca histórica deixada por pessoas geniais, e o mundo é melhor por isto. Tente ouvir a entrada do coral no quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven e não pensar em coisas sublimes. É difícil. Leia o discurso de Lincoln na dedicação do Cemitério de Gettysburg, ouça a gravação original, ao vivo, do “Eu Tenho um Sonho” de Martin Luther King e deixe se envolver por aquela sensação de estar diante da manifestação genial de pessoas especiais, destas que a natureza coloca generosamente à disposição da humanidade, a cada nova geração de bebês que nascem, só exigindo um meio ambiente estimulante propício. Pense em Bach, em Marx, no Pelé, no Picasso, em Darwin, em Lincoln. Que lampejo sublime de lucidez permitiu a Newton a síntese extraordinária da lei da gravitação universal? Em Brasília olho, meu Deus! a perspectiva da esplanada dos ministérios, com o prédio do Congresso Nacional ao fundo, e quero abraçar Oscar Niemeyer e dar lhe na face, um beijo reverente de puro agradecimento. Por um momento não importa que lá esteja algo mais que o “centro das grandes decisões nacionais” de JK. Mas há um problema... O talento, uniformemente distribuído por toda a população, é essencialmente imprevisível. Esta entidade fantástica, produto das variações sutis e aleatórias na fiação infinitamente complexa de cada cérebro humano, desconhece clivagens de gênero, de raça ou de renda. Governada unicamente pela lei probabilística dos grandes números atravessa, insensível, as fronteiras geográficas mais bem guardadas ou os estratos sociais mais arraigados. Na Índia atropela o apartheid disfarçado em estrutura de casta e em todo o mundo ridiculariza os teóricos fascistas da eugenia. Ao pai genial não se lhe assegura maior chance de filhos especiais, embora estes, geralmente crescendo em ambientes excepcionalmente estimulantes, possam manifestar lampejos que sugerem, ao observador desatento ou pré-condicionado, vínculos de natureza genética. E há espaço para todos, que vastas e infinitamente complexas são as dimensões de manifestação do talento humano. Segundo o IPEA, 77% da população brasileira vivem com renda familiar mensal igual ou inferior a 5 salários mínimos. É a maioria pobre. Dos 3 milhões de bebês que nascem a cada ano no Brasil, mais de 2 milhões vêm ao mundo neste estrato das oportunidades restritas. Vivendo em uma sociedade estratificada, onde a educação básica, pela péssima qualidade, não funciona bem como elemento promotor de mobilidade social, serão em grande parte condenados a viver na pobreza e a transferi-la como herança a seus filhos. Mais 18 anos e chegarão à porta de entrada da vida adulta, sem uma educação formal de qualidade que lhes aponte e abra caminhos claros adiante. Sem a possibilidade de respaldo econômico familiar que lhes garanta reforço acadêmico ou um empurrão inicial para qualquer coisa, se encontram numa verdadeira sinuca de bico social, vulneráveis ao “lado sombrio da força” que campeia em terreno fertilizado pelo abandono e a negligência da Nação. E o lado sombrio existe: há também o talento potencial para o mal, nas mesmas proporções, mas nas direções opostas, definidas não pela negação das habilidades positivas e desejáveis, mas por dimensões novas em seus próprios méritos. O perna-de-pau completo e incurável não faz mal a ninguém, e ainda serve de contraponto aos Ronaldos da vida. Falo aqui das habilidades potenciais negativas. A anti-matéria da matéria, que sociedades saudáveis cuidam de não estimular, abrindo ao mesmo tempo canais alternativos – talvez correlacionados, mas em direções positivas – de manifestação e participação. Mas nós não somos uma sociedade saudável. Não ainda. Nunca fomos. E no vazio intoxicante das oportunidades perdidas medra vigorosa a erva daninha. A Educação nunca fez parte, seriamente, de nenhuma estratégia de desenvolvimento neste país. Numa biografia recente de JK, em mais de 700 páginas a palavra apareceu uma única vez, na formação do ministério do então presidente eleito. E a mãe de Juscelino era uma professora! E, hoje, o nosso sistema de educação básica vive uma grande tragédia nacional. Enquanto, pelo padrão internacional, uma criança deve estar alfabetizada ao final da 1a. série, metade de nossos alunos ainda é analfabeta funcional ao final da 8a. série. A edição de 2003 do PISA/OECD examinou, no tema Matemática, 250 mil estudantes de 15 anos em 41 paises associados, classificando cada aluno, na ordem crescente do seu desempenho, do nível 1 ao 6. O Brasil ficou em 40o. lugar, atrás de Indonésia, Tailândia, Tunísia, Turquia, México e todos os outros, com 54% de nossos estudantes não se qualificando sequer ao Nível 1. Numa pesquisa recente entre alunos de uma das mais respeitadas universidades do País, 63% não faziam a mais vaga idéia de qual seria a população brasileira, marcando alternativas absurdas como 35 e 350 milhões; 80% citaram S. Paulo como a unidade da federação com maior número de representantes no Senado. São as marcas duradouras de uma escola básica que abdicou de ensinar. Uma ditadura de vinte anos deixa seqüelas profundas que lhe sobrevivem por décadas. O horror ao autoritarismo moldou uma geração de pais e professores que abomina a autoridade. Sem esta como referência a criança se desorienta e, em grupos extensos explode em convulsões caóticas que o professor, impotente, não mais controla e vai empurrando com a barriga via progressão continuada. Numa outra direção, ícones históricos e legítimos da luta contra a ditadura retornam, encanecidos, de seus exílios alpinos, para a aceitação reverente dos que aqui ficamos. Oráculos deslocados no tempo e no espaço, ditam nortes confusos e paralisam o pensamento crítico. A confusão se instala. E neste ambiente caótico nosso vasto potencial humano em grande parte se esvai num emaranhado de “teorias” confusas, formas sem conteúdo, em arrogante contradição com as evidências empíricas. E a população mais carente, a mais pobre, é a maior vítima. Frequentemente sem o benefício de um ambiente familiar culturalmente elevado, sem recursos para comprar por fora os remendos acadêmicos necessários, o jovem se gasta numa escola patética e só excepcionalmente conquistará um das vagas de qualidade que o sistema universitário público oferece. No vestibular de 1.999, da Unicamp, apenas 5,5% dos aprovados vieram dos três quartos mais pobres da população, enquanto 35,5% saíram dos 2% mais ricos. Focando nos cursos mais concorridos, a situação fica ainda mais distorcida: A Faculdade de Medicina é uma cidadela inexpugnável para a maioria mais pobre. A concentração das vagas de qualidade nas universidades públicas é ainda mais profunda que a da renda no País. Mas as boas universidades públicas brasileiras ainda são nichos de qualidade no sistema nacional de ensino. Vitimas também da patética situação do ensino básico que as priva do acesso aos vastos recursos humanos potenciais em nossa população, as universidades públicas lutam com dificuldade para se manterem como referencial de qualidade. Seus processos seletivos são nortes referenciais para muitos jovens. Em trinta e seis anos de vida universitária, jamais testemunhei qualquer episódio de desvio fraudulento dos critérios acadêmicos de seleção, que não fosse episódico, isolado e exógeno. Com todos os seus problemas e limitações, o vestibular do setor público é um raro exemplo de estabilidade e confiabilidade no universo crescentemente entrópico da educação brasileira. Agora, o oportunismo político de um sistema que nunca teve a coragem de enfrentar o núcleo do problema, poderá arrastar toda esta cidadela à vala comum do tudo o mais. Diferente dos Estados Unidos, onde a distinção étnica é mais acentuada, no Brasil vemos o sonho de Luther King de que “um dia o filho do antigo escravo e o do antigo senhor de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade”, realizado, de forma obliqua, dentro de cada um nós, da maioria dos brasileiros. Sim, que somos, individualmente, sínteses daquelas duas vertentes étnicas e de muitas outras, residindo exatamente aí o tempero forte de nosso potencial humano. E vemos agora um corre-corre despudorado de pessoas que, até ontem, negariam qualquer herança da vertente africana, buscando em velhos baús provas de negritude, na corrida oportunista pelo caminho simplificado às vagas de qualidade. E o negro a que se refere o espírito da lei ficará, novamente, de fora. Existe aqui um paradoxo curioso e perverso. Se o critério de negritude que vem sendo usado pela onda oportunista desencadeada pelo programa de cotas for aplicado à nossa corrente população de estudantes universitários, chegaremos à absurda conclusão de que a cota de negros já é atingida, desde sempre, pelas nossas universidades. No entanto não necessito de mais que os dedos das mãos para contar todos os negros negros que encontrei, como professores, colegas ou alunos, na minha vida universitária. E como somos piores por isto. Eles não estão lá, não em números minimamente condizente com sua participação proporcional na população, assim como não estão lá os pobres, havendo aí uma correlação óbvia cuja perversidade se auto perpetua. Esta situação perversa é absurda e contraditória com o espírito republicano e democrático, e sua solução uma demanda urgente do aqui e agora. Mas resolvê-la escancarando-se as portas da universidade às ondas oportunistas seria uma covardia e uma burrice. A entropia do sistema educacional brasileiro teria uma escalada histórica, propagando-se sobre o sistema universitário público. E, sobre a terra arrasada, a lei da vantagem se espalharia como a peste. A democratização da universidade pública demanda ação urgente e corajosa no sistema nacional adutor básico, em duas vertentes conjugadas, a estrutural e a emergencial. Na primeira devemos promover uma revolução impaciente, irritada e profunda na nossa escola básica; na segunda, garimpar desde já, lá dos níveis fundamental e médio, num esforço multilateral, os alunos pobres mais promissores e tutorá-los, pelas portas da frente, às melhores vagas nas universidades públicas, cumprindo cotas emergenciais progressivas. E a nossa universidade pública de livraria de vez de seu jeitão anacrônico e indefensável de aristocracia e casta, projetando-se no País como uma instituição republicana vigorosa, democrática, crítica, produtiva e socialmente ligada. Prof. Dr. Sebastião de Amorim IMECC - Unicamp

Execelente texto do Celso Lungaretti, sobre a ocupação da reitoria da USP e a perseguição da mídia aos estudantes.
POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA Celso Lungaretti (*)A última segunda-feira de maio é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos. Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça. Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes. Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007. Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto. Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando. Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de “vândalos”, “baderneiros” e “arruaceiros”.] A diferença mais marcante em relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e “rádio livre”. De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da Greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou. Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio). Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes. Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres “José Serra, nada mais nos U.N.E.”. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!] Sou capaz de apostar que, se fizesse uma “excursão” como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à “anarquia criativa”, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica. Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? [De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as conseqüências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.] Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe “administrativo” da ocupação, zelando pelo patrimônio público. Até permitem que os faxineiros continuem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao “perigo” de que o “inimigo” possa infiltrar-se camuflado com macacões. O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de “sem dinheiro”. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: “Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu”. À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser. Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário. Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta. E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções. As pedras voltam a rolar. P.S. – Já me preparava para expedir este texto em várias direções quando foi anunciado que, "a pedido" dos reitores da USP, Unicamp e Unesp, bem como do presidente da Fapesp, Serra reformulou um e deu nova interpretação a outros quatro daqueles decretos contestados pelos estudantes, funcionários e professores por ferirem a autonomia universitária. Conseqüentemente, os “vândalos”, “baderneiros” e “arruaceiros” é que estavam certos. Seus detratores, se tivessem um mínimo de dignidade, lhes pediriam desculpas publicamente. * Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais crônicas e artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
Dificilmente uma editora se dispõe a lançar um livro de um escritor desconhecido, a menos que ele tenha em seu currículo um certo reconhecimento obtido através de concursos literários. Músicos costumam participar de festivais musicais. Pintores e escultores começam expondo suas obras em feiras e exposições. Enfim, a grande quantidade de artistas querendo divulgar sua obra em um mundo onde só o dinheiro interessa aos empresários que vendem arte (ou pseudo-arte que só atende a apelos comerciais) nos traz um grande problema.
Mas, assim como as gravadoras fecham as portas para músicos talentosos e as abrem para qualquer Mc Qualquer Coisa ou Fulaninho dos Teclados que aparece, as editoras também costumam resistir a pubicar romances, crônicas, contos e principalmente poesias de escritores iniciantes, enquanto mantém suas portas abertas aos "escritores" de auto-ajuda.
O fato é que para se publicar um livro no Brasil, país onde as pessoas não têm o hábito da leitura e os livros costumam ser caros, o escritor iniciante, salvo raras exceções, precisa ter uma certa fama obtida através dos concursos literários. Porém, fica a pergunta: como se avalia um texto em um concurso literário?
Talvez o critério mais justo seja a originalidade, mas em concursos costumam aparecer vários trabalhos extremamente originais, e muitas vezes é impossível dizer qual deles é o mais original.
Outros critérios costumam ser usados, mas no final o que acaba prevalecendo mesmo é o gosto dos jurados. Um escritor de vanguarda, por exemplo, pode não ter suas inovações criativas apreciadas por jurados adeptos do velho lirismo.
A questão central é como se pode comparar um texto de Machado de Assis com um de Guimarães Rosa e dizer qual deles é o melhor. Qualquer crítico literário diria que isto é impossível, que cada autor possui seu modo de narrar uma estória, sua própria visão de mundo e sua própria escola literária. Mas então porque no caso dos concursos literários esta comparação é possível? Por que os desconhecidos podem ser tratados como iguais e os autores consagrados não podem? Nos concursos de poesia aparecem textos concretistas, clássicos, modernistas, etc. Como se pode compará-los e dizer qual deles é o "melhor"?
Sempre que me inscrevo em algum concurso literário medito sobre estas questões. Acredito que um prêmio em concurso nada tem a ver com a competência do escritor. O critério que as editoras têm para selecionar um obra baseando-se no "mérito" do autor em concursos literários segue a mesma lógica do Prof. Dr. José Antônio Brum, diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que uma vez dise em uma palestra: "para fazer estágio no Síncrotron eu exijo que o aluno tenha um bom CR (Coeficiente de Rendimento, uma média ponderada das notas do aluno), porque um aluno que tem CR baixo pode ser um bom estágiário, mas se o aluno tem CR alto eu tenho certeza de que ele será um bom estagiário".
Se todos os cientistas fossem como Brum, a ciência não teria tido Faraday. Se todas as editoras fechassem as portas para escritores rejeitados pelos críticos dos concursos literários, não teríamos tido Guimarães Rosa. Até quando esse pensamentozinho hipócrita pequeno-burguês prevalecerá?
Recentemente a ministra Matilde Ribeiro (foto), responsável pela Secretaria Especial de Política da Igualdade Racial, afirmou que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco". O mais preocupante não é conteúdo da frase em si, mas o fato de ter saído da boca de uma ministra cujo trabalho é justamente combater o racismo.
Há muitos movimentos de "negros" mundo afora que pregam a discriminação contra os "brancos". Muitas vezes estes grupos justificam suas ações alegando que só estão respondendo à discriminação dos "brancos" e que se não agirem dessa maneira abrem espaço para a ação de grupos racistas.
Mas não é só com relação ao racismo que episódios como esse acontecem: basta vermos os vários grupos feministas que pregam a superioridade da mulher ao invés de lutarem pela igualdade entre os sexos, ou pobres que discriminam ricos, ou grupos religiosos que discriminam quem não segue sua religião. O preconceito é sempre bilateral, desde um grave problema social como o racismo, até preconceitos incomuns, como o de certos vegetarianos que não aceitam o fato de outras pessoas comerem carne.
O mais curioso é que todos esses movimentos parecem estar se dividindo em dois caminhos: o do diálogo e o da intolerância. Nenhum exemplo seria melhor para ilustrar este fato do que a questão religiosa: de um lado vemos sacerdotes de várias religiões se reunindo para fazer grandes atos ecumênicos buscando uma coexistência pacífica entre os diferentes credos. De outro, há algumas religiões radicais que se consideram "a religião certa" e pregam o ódio aos que não a seguem. Dentro de cada religião se nota o mesmo dilema: alguns fiéis aprovam o ecumenismo, enquanto outros preferem interpretar preconceituosamente a frase bíblica "separar o joio do trigo".
Me lembro de ter visto, há alguns anos, um documentário sobre a ação de uma ONG de inclusão social na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Na ocasião, uma moradora da favela, ao ser entrevistada afirmou que já havia sido contra os "playboys", afirmando que costumava discriminar os jovens que usavam "roupas de marca" porque se sentia discriminada por eles. Somente o trabalho da ONG a fez perceber que ela também tinha uma visão preconceituosa dos "playboys".
No caso dos movimentos anti-racismo, a ministra mais tarde justificou sua frase dizendo que o racismo "é natural, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou". Novamente, caímos na mesma lógica de discriminar quem nos discrimina. E a luta pela igualdade entre os homens continua. Cada um lutando à sua maneira: uns cometendo massacres étnicos, outros usando a lei de talião, e outros buscando o caminho mais sensato: diálogo e disposição para compreender uns aos outros.
Sizenando, a vida é triste
Está provado que acordar mais cedo faz o dia maior. Esta frase nao é minha, e desgraçadamente não consegui saber o nome de seu autor, pois acordei muito cedo, mas não o bastante cedo; quando liguei o rádio às 6:10 a aula já tinha começado; ouvi o programa até o fim, mas não fiquei sabendo o nome do professor. "La verando estas vera jardeno, plena de flôroi". Nunca estudei esperanto, mas suponho que a varanda ou o verão está com muitas flores no jardim; de qualquer modo é uma boa notícia, algo de construtivo.
Confesso que a certa altura mudei de estação; sou um espírito inquieto. A estação logo à direita dava telegramas de Argel, crise na França; fui mais adiante, sintonizei um bolero; tentei ainda outra, dizia anúncios; voltei para o meu jardim florido em esperanto.
O professor estava agora respondendo cartas de ouvintes. O Sr. Sizenando Mendes Ferreira, de Iporá, Goiás, escrevera dizendo que achara suas aulas muito interessantes e queria se inscrever entre seus alunos.
Sou um homem do interior, tenho uma certa emoção do interior, às vezes penso que eu merecia ser goiano. A manhã estava escura e chuvosa em Ipanema; e me comoveu saber que naquele instante mesmo, a um mundo de remotas léguas, no interior de Goiás, havia um Sizenando, brasileiro como eu, aprendendo que o "jardeno" está "plena de flôroi" - e talvez escrevendo isso em um caderno.
Não importa que neste momento haja milhões de brasileiros dormindo insensatamente, enquanto outros milhões tomam café ou banho de chuveiro ou já marchem para o trabalho, ou que minha amada Joana esteja neste minuto saindo da Sacha's e entrando no carro daquele "stompananto" de Botafogo. Eu e Sizenando cultivamos o jardim da cultura, "plena de flôroi"; nós somos, de certo modo, a elite do Brasil; amanhecemos em flor.
Então o professor, talvez estimulado pela atenção do ouvinte goiano, fez uma pequena dissertação sobre a utilidade do esperanto e tambem sobre a vantagem de acordar cedo. Está provado que acordar mais cedo faz o dia maior. Nao será uma frase muito sutil, mas é tão pura e bem-intencionada que poderá figurar no decálogo do escoteiro. No fundo deve haver alguma ligação entre o escotismo, o esperanto e acordar cedo. Eis uma falha de minha vida; nunca fui escoteiro; agora é tarde para quebrar coco na ladeira, mas talvez ainda seja tempo para aprender um pouco de esperanto; eu e Sizenando. "Tenho um amigo" - dizia o professor - "que me confessou que nunca ouvira o meu programa, pois dorme até tarde. Pois bem. Ele ontem acordou cedo e ouviu o meu programa. Disse-me que passou o dia inteiro com uma excelente disposição, achou o dia maior e mais útil, ficou realmente satisfeito."
O próprio professor estava satisfeito com a declaração de seu amigo; sentia-se isso em sua voz. Murmurei para mim mesmo que o golpe é este: todo dia acordar cedo, ouvir minha aula de esperanto e depois se houver alguma aula de ginástica pelas imediações topar também, "mens sana in corpore sano", no fim do mês os amigos vão ficar espantados, como o Braga está bem! Este pensamento me reconfortou; estendi a mão para pegar um cigarro na mesinha-de-cabeceira, mas fumei com um certo remorso. No fundo o esperanto deve ser contra o tabagismo, assim como é favorável ao escotismo.
"Mi estas bruna". Isto quer dizer: eu sou moreno. "Mi estas bruna", ó filhas de Jerusalém, dizia a Sulamita. A esta hora Joana deve estar no carro daquele palhaço, toda aconchegada a ele, meio tonta de uísque, vai para o apartamento dele - um imbecil que não sabe uma só palavra de esperanto! A vida é triste, Sizenando.
Rubem Braga - Rio, junho 1958.
“Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções, ninguém passa mais brincando feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou”. Assim começa a Marcha da Quarta-feira de Cinzas, uma belíssima (e triste) canção composta por Vinícius de Moraes e Carlos Lyra em 63. De lá para cá o carnaval mudou muito, mas continua sendo nossa principal festa popular.
Passei o carnaval em São Simão, interior de São Paulo. A cidade estava cheia de pessoas estranhas, turistas, extremanente mal-educadas, estúpidas, que viviam bêbadas pelos cantos e arranjando brigas. Ah! Que saudade dos carnavais de antigamente, tranquilos, frequentados pelas famílias que agora ficam em casa. Saudades de uma época em que o carnaval era feito de samba e marchinhas, e não de funks pornográficos e axés ridículos.
Durante mais um carnaval tive que ouvir a pérola (desta vez no sentido depreciativo do termo) “a gente tava andando de trem pra inventar uma dança”. Poético não? Ai, que vontade de escutar Kajto. Eles sim fizeram músicas lindas e criativas sobre trens. Ao contrário dos carnavais de outrora, o que se ouvia nas ruas eram funks pornográficos, axés com letras sem sentido, raps que chamam bandidos de coitadinhos e outras bobagens. À noite, atrás da rodoviária da cidade, aconteciam bailes de carnaval que varavam a madrugada. A banda tocava bem, mas o repertório era péssimo. Mero entretenimento barato para manter as massas ignorantes.
Nosso povo parece estar se esquecendo de suas raízes culturais. Na ânsia por atrair turistas, as prefeituras das cidades pequenas contratam bandas de rock, duplas sertanejas, grupos de funk ou colocam Shakira para tocar no trio elétrico. O samba, coitado, está esquecido. Até na Sapucaí ele aparece em segundo plano, ofuscado pelos canhões de luz.
No entanto, o jornal O Estado de São Paulo do dia 20 de fevereiro publicou, em um cantinho de página, a notícia de que o carnaval de São Luiz do Paraitinga, uma cidadezinha do vale do Paraíba, atraiu uma multidão de 120 mil pessoas atrás de suas tradicionais marchinhas. É uma boa resposta aos que consideram samba e marchinhas um carnaval antiquado.
A Marcha da Quarta-Feira de Cinzas termina nos dando uma pontinha de esperança: “Quem me dera viver pra ver, e brincar outros carnavais, com a beleza dos velhos carnavais, que marchas tão lindas e o povo cantando seu canto de paz”. O que nos remete a São Luiz do Paraitinga com suas marchinhas.
Ontem, dia 11 de fevereiro, fui com meus amigos Harlen e Ricardo até Ribeirão Pires para assitir a um show do Toquinho. Já fazia muito tempo que desejava vê-lo tocar ao vivo e quando a oportunidade surgiu me dispus a viajar durante horas para assistir a um dos mestres da nossa música tocando suas composições e relembrando belas canções de Tom Jobim, Chico Buarque, Adoniran Barbosa e de seu maior parceiro ao longo da carreira: o inesquecível Vinícius de Moraes.
O show foi promovido pela prefeitura da cidade em parceria com o Intituto Ayrton Senna. É bom saber que ainda são oferecidos bons eventos culturais gratuitos para o povo, em uma época em que é cada vez mais comum as prefeituras contratarem a Tati Quebra Barraco para tocar no aniversário da cidade. Esta apresentação do toquinho foi parte de vários eventos em comemoração à volta às aulas nas escolas publicas da cidade, o que, inicialmente, parece algo um tanto esquisito, mas se observarmos bem é uma boa idéia.
Havia um grande número de adultos e crianças, e Toquinho soube agradar a ambos os públicos, misturando em seu repertório várias pérolas (no sentido original do termo) da MPB com as geniais canções infantis da Arca de Noé. O show começou com Tarde em Itapoã, que me fez lembrar de uma gravação antiga de Toquinho, Vinícius e Maria Creusa na Argentina. Logo depois cantou A Casa e O Pato, duas canções da Arca de Noé. Em seguida voltou ao repertório dirigido ao público adulto tocando Que Maravilha, novamente me trazendo à memória outra gravação dele com Vinícius e Maria Creusa (Clique aqui para assitir a um vídeo de Toquinho cantando as três últimas cançoes citadas no show de ontem).
Depois o show continuou com várias canções, algumas que sempre estiveram no repertório dele como Regra Três e Samba pra Vinícius, e outras que recebi com surpresa, como Samba de Orly, que não imaginava que seria tocada no show, e Trem das Onze, que jamais havia ouvido na voz do Toquinho. É claro que não poderia faltar Aquarela (assista o vídeo).
Depois do show almoçamos e fizemos uma nova viagem de volta a Campinas. Apesar de cansativo, foi um dia prazeroso. Conhecemos lugares diferentes, conversamos, ficamos vermelhos de sol, apesar de termos ficado a maior parte do dia sob uma fina garoa, e, o melhor de tudo, assistimos a um show Toquinho.
Clique aqui para ver fotos do show.
Um mês após assumir o governo do Estado de São Paulo, José Serra, em uma decisão extremamente democrática, decidiu, por um voto a zero, cortar ainda mais as verbas das universidades estaduais paulistas.
Desde a saída de Franco Montoro do governo do Estado, cada governador agiu exatamente como Serra, cortando verbas para a educação e desviando o dinheiro sabe-se lá para onde. Seu antecessor, Geraldo Alckmin, iludiu os reitores das universidades estaduais para aumentarem as vagas em suas universidades. Quando a Assembléia Legislativa de São Paulo (ALESP) decidiu aumentar as verbas das universidades possibilitando assegurar ensino de boa qualidade (e aumento de verbas para o ensino básico também), o governador simplesmente vetou a decisão dos representantes do povo paulista, julgando-se o dono da verdade.
Um partido que chama as pessoas pobres de "povão" (como se pôde ver na campanha de Alckmin à presidência da república no ano passado) não pode ser levado a sério. É um partido elitista, cujo objetivo básico é manter as massas ignorantes. Neste cenário, agora que, finalmente, as universidades públicas vão sendo, aos poucos, deselitizadas, o objetivo do PSDB é, mais do que nunca, transformar as melhores universidades do país em Unips públicas, enquanto os filhos de Serra, Alckmin, e da elite em geral estudarão na Europa, nos EUA, ou mesmo em universidades privadas brasileiras que exigem que o aluno tenha laptop e pague mensalidades de milhares de reais.
Quando FHC era presidente, encontrou uma maneira brilhante de aumentar o número de vagas no ensino superior sem gastar, criando a falsa impressão de ter investido nas universidades: elevou vários cursos técnicos ao status de cursos superiores (são os cursos de tecnologias). Alckmin aproveitou-se disso para criar as fatecs, que nascem como ervas daninhas em qualquer terreno, oferecendo ensino de qualidade discutível, com docentes sem qualificação e sem realizar atividades significativas de pesquisa e extensão. Um mero faz-de-conta.
É vergonhoso ver que SP vai na contramão do Brasil. Nos últimos anos, o governo federal criou novas universidades federais (muitas delas em SP) e aumentou as verbas para as universidades federais, além de contratar novos docentes. O PSDB diz que as medidas do governo Lula têm sido insuficientes, e de fato o são. Porém, Lula tem feito o oposto do governo tucano, investindo, na medida do possível, na melhoria do ensino superior público (e do ensino básico também, com o Fundeb). Em um país carente de investimentos em tantas áreas, não se pode esperar que de um dia para o outro as universidades estejam nadando em dinheiro. Mas, à medida que nossa economia cresce, parte do superávit é direcionado para a educação, enquanto em SP o dinheiro some em obras superfaturadas e mal feitas como a linha amarela do metrô e o rodoanel.
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Ontem fui ao baile de formatura do meu amigo Ricardo. No convite estava escrito que deveríamos usar traje social completo. Porém, a comissão de formatura afirmou que o traje social completo não seria necessário e eu e alguns amigos fomos de traje social, porém sem paletó e gravata.
Na portaria os seguranças nos impediram de entrar, alegando que não estávamos adequadamente trajados. Após muita confusão e constrangimentos para os anfitriões da festa, finalmente o ingresso de pessoas "mal vestidas" foi admitido. Parece até a história do Clodovil que foi impedido de entrar no prédio do Congresso Nacional por ter errado o modelito e não usado gravata.
O caso do Clodovil, que foi parar nas revistinhas de fofoca como uma gafe, ilustra um pensamento atrasado da nossa sociedade. Clodovil iria assistir palestras para aprender a exercer com eficiência seu trabalho de parlamentar. Impedido de assistir às palestras, poderá ter dificuldades ao longo do mandato, de modo que toda a sociedade pode ser prejudicada por um pedaço de pano totalmente inútil.
No caso de uma sala escura e quase sem iluminação, como a da festa de ontem, de que adiantam os paletós escuros e as gravatas que ficarão na penumbra sem que ninguém os veja? E um homem deve ser julgado pelo que veste ou pelo seu caráter? Se em uma festa gravatas são mais importantes do que os convidados, deveriam convidar as gravatas ao invés das pessoas, e aconteceriam belos bailes onde só as gravatas entrariam e ficariam sentadas nas mesas bebendo vinho e conversando ou dançando a noite toda.
Vivemos em um país tropical, e ainda por cima estamos no verão. Mesmo de madrugada as temperaturas costumam ser muito altas para termos que usar paletós quentes e pouco confortáveis. Muitos convidados "nos trinques" simplesmente deixaram seus paletós em cima da mesa durante toda a festa, e não sentiram falta.
O homem inventou o paletó para se proteger do frio. Com o tempo passou a usá-lo em eventos sociais importantes. Porém, é sempre bom lembrarmos da utilidade das coisas. Um paletó serve para algo mais do que nos proteger do frio? E uma gravata serve para quê? Vivemos em um mundo que nos ilude com aparências e convenções sociais caducas. O capitalismo nos vende mentiras, nos faz comprar uma ferrari que atinge 300 km/h para usá-la na cidade onde não podemos passar de 60 km/h, ou então nos faz acreditar que é um pedaço de pano ao redor do pescoço que nos torna homens.
Clique aqui para ver as fotos da formatura.
No início do ano, como todos sabem, o governo federal apoiava a reeleição de Aldo Rebelo à presidência da Câmara. O outro candidato era o petista Arlindo Chinaglia. Parecia, à primeira vista, esquisito o apoio governista ao adversário de um candidato do mesmo partido, porém, é necessário lembrar que o PT precisa de apoio de outros partidos para poder governar e, sob esta ótica, faz sentido que o partido queira abrir mão da presidência da Casa, evitando uma concentração desnecessária de cargos importantes que comprometeriam a base aliada. Foi nisso que os tucanos pensaram ao decidir apoiar Chinaglia, uma jogada de mestre que só não deu certo porque nossa mídia, bem como o próprio povo, não foi capaz de aceitar o fato do partido que representa a oposição a Lula estar apoiando um petista. Com isso, criou-se a necessidade do PSDB lançar candidato próprio somente para fazer cena. Precisamos acabar com essa mentalidade idiota de oposição por oposição somente. Os políticos brasileiros precisam aprender a trabalhar unidos em um grande projeto de nação, a exemplo de outros países. Quando Lula assumiu o governo, decidiu manter alguns projetos do governo anterior que estavam dando bons resultados e a mídia o acusou de ser incapaz de propor outros programas e por isso se limitava a copiar FHC. Só mentes extremamente mesquinhas poderiam soltar tamanha verborragia fecal. O fato é que a maneira infantil de fazer oposição birrenta só tem contribuído para atrapalhar o desenvolvimento de nosso país. É graças a esta ideologia de que o governo precisar mudar tudo e a oposição precisa atrapalhar o governo a qualquer custo que nossa economia vive mudando de rumo e nosso país nunca é pensado para um futuro distante, mas somente para um mandato de quatro anos. O sonho de qualquer político brasileiro é fazer o Brasil crescer, digamos, 40 anos em 4, para o presidente entrar para a história como o novo JK, enquanto seu sucessor paga a conta da brincadeira. A decisão inédita do PSDB de apoiar um petista, embora tenha sido tomada com objetivo e atrapalhar o PT, teve o mérito de nos mostrar um jeito novo de fazer política. A nossa imprensa marrom, controlada por meia dúzia de sanguessugas que vivem às custas da miséria do nosso povo, aproveitou para fazer propaganda contra o novo modo de fazer política. Se houver cooperação, o país progride e o poder dos coronéis da mídia diminui, já enquanto nossos governantes brigam, o país sofre. Chinaglia venceu, afinal.
Parece-me ser típico da cultura brasileira importar experiências que deram bons resultados em outros países. Isso é bom, mas cada povo tem suas peculiaridades e necessidades específicas, por isso adaptações precisam ser feitas. É exatamente neste ponto que o PAC se mostra como um grande avanço em relação a pacotes econômicos adotados anteriormente.
Os portugueses colonizaram o Brasil com o objetivo de explorar nossas riquezas. Como éramos apenas uma grande fábrica de açúcar e minérios, tudo o mais, inclusive os colonizadores e escravos, vinham do exterior, trazendo consigo tudo o que a colônia precisava, até as idéias. Nos acostumamos a importar não só bens materiais, mas também modelos. Deste modo, as escolas fundadas pelos jesuítas seguiam um modelo de educação europeu, os médicos e advogados vinham da Europa, até mesmo o império de D. Pedro I era uma vã tentativa de copiar um sistema de governo comum no velho mundo.
O tempo passou e importamos a república. Nosso governo, desde então, sempre tentou importar modelos econômicos dos “çábios” economistas de Nova Iorque. Desta forma, ignoramos os problemas específicos tupiniquins e vimos nossa economia à deriva em um mar de dificuldades. Foi um grande erro. Os EUA, desde aquela época, já eram um país pronto. O Brasil ainda é um país em construção e necessita de muitos investimentos em infra-estrutura.
É exatamente aí que entra o PAC, o novo plano do governo brasileiro que certamente corrigirá esta distorção. Importando modelos econômicos de países desenvolvidos, conseguimos criar um grande mercado consumidor, mas como não havia infra-estrutura, o jeito foi abrir nossas portas para o capital estrangeiro. Desse modo voltamos ao velho pacto colonial: vendemos matérias-primas para comprar o produto final.
Através do PAC, o governo se compromete a investir em infra-estrutura. Essa garantia de infra-estrutura incentiva o investimento, pelo setor privado, em produção, gerando um crescimento sustentável por décadas: é a economia brasileira sendo pensada a longo prazo. Uma grande vantagem deste modelo é que o governo pode ter maior controle do crescimento econômico da nação, evitando que o PIB cresça muito mais do que os investimentos ou vice-versa.
Getúlio Vargas se inspirou no New Deal de Roosevelt para industrializar nosso país. Deu tão certo que após um crescimento gigantesco nossa economia se estagnou. Foi então que JK assumiu a presidência e conseguiu superar a crise liberalizando nossa economia. Novamente nosso PIB cresceu rápido demais e se estagnou. Com o PAC, há um equilíbrio entre investimentos e crescimento. É exatamente este equilíbrio que possibilitará um crescimento duradouro.
O PAC, em alguns aspectos, lembra o New Deal, mas é essencialmente adequado à realidade brasileira. Parece que finalmente aprendemos a adaptar experiências estrangeiras de sucesso à nossa realidade.
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